segunda-feira, 9 de junho de 2008

TRADUZIR-SE (Ferreira Gullar)


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

1 Comentários:

Blogger Jacó Filho disse...

Magnífico poema... Ótimo gosto e grande sabedoria... Parabéns!!!! E que Deus as abençoe... Sempre...

16 de junho de 2008 19:49  

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